O quarto ciclo de debates do auto intitulado “clube de pensadores” iniciou-se na passada segunda-feira com um debate que pretendeu debater o lugar da verdade na política. Foi mais uma ovação a uma específica e determinada visão de “verdade” do que um verdadeiro debate sobre a essência da verdade na política, ou não fosse a convidada especial a “controversa” Ana Gomes, que não se conseguiu abstrair por nem um minuto da defesa da ideologia e da “verdade” socialista, deixando o verdadeiro debate para os restantes oradores e para a assistência.
Entre outras coisas, Ana Gomes criticou (veja-se!) a crescente valorização da eficiência em detrimento da ideologia, e a consequente aproximação ao “centro” dos partidos de Poder! Ora, não vivemos nós, e cada vez mais, numa realidade sócio-económica global e hiper-competitiva, em que a eficiência das medidas de um governo é de importância vital? De que nos serve a ideologia se esta não melhorar as nossas condições de vida? E boas condições de vida não se resume a “ter coisas”. Boas condições de vida é viver numa sociedade estável que nos permita com segurança olhar o futuro. E isso não se faz com ideologia. Fazer-se-ia se houvessem ideologias, suportadas por partidos aptos a governar, que não defendessem o bem comum. Mas não é isso que acontece. Salvo raras excepções em que é visível a emergência de movimentos extremos, tanto à esquerda como à direita, a ideologia dos partidos tem como fim último a justiça e a melhoria do bem estar comum dos cidadão. Ideologicamente diferem entre si, mas essas diferenças esbatem-se no plano do real, em que é necessário tomar medidas concretas quanto a problemas concretos. E, no plano real, se se preterir a eficiência em favor da ideologia, o País afunda. E afunda quanto mais irrealistas (ou socialistas, não vou discutir semântica) elas forem! Nem me vou dar ao trabalho de explanar a parte do discurso da senhora deputada que se resumiu a um enaltecer das verdades ideológicas socialistas.
Talvez a intervenção mais oportuna do debate tenha sido a da advogada Maria Manuel, que salientou que a verdade e a mentira o são conforme a óptica por onde queremos olhar, e que a Política não é mais do que, actualmente, “a ciência do Poder do Estado”. Salientou ainda que a principal responsabilidade de um político é “primeiro, quais são os recursos que tem ao seu dispor para satisfazer o maior número possível de necessidades do todo populacional, recursos esses que são escassos, depois, como actuar, quais as prioridades, e depois assumir a opção tomada”. Conseguem ver a diferença entre quem defende ideologia e quem defende eficácia, realidade, bom-senso, como lhe queiram chamar?
Fabulosa foi a intervenção do psiquiatra Carlos Pereira, que disse que “os partidos estão esgotados” e que “a qualidade dos nossos políticos é muito má”. Usando de algum humor, o psiquiatra disse que “isto começa a ser mau demais”, principalmente quando os políticos vão para Lisboa e se tornam “alisbonados, deslumbrados com aquele poder e algum dinheirinho”. Joaquim Jorge, confesso socialista, não se coibiu de criticar o governo do seu próprio partido, acusando-o de não cumprir com as promessas eleitorais, aproveitando para generalizar, dizendo que em Portugal “há uma naturalização política da mentira”. Acusou ainda a classe política portuguesa de parecer “uma nobreza que vive numa redoma”, sem noção do que é a vida real. Não poderia estar mais de acordo.
Se este post fere algumas sensibilidades socialistas, então que fira! A reflexão e a discussão são desejáveis e saudáveis. Além do facto de que tenho de “expiar os meus demónios” em algum lado que não o PJ…